Escrever ficção é ter permissão para sonhar, viajar, inventar realidades e personagens, é como viver várias vidas.
Meus contos são reflexos do que vi, ouvi, vivi, inventei e misturei tudo no meu iquidificador cognitivo.
Sara carregava uma criança e um saco que parecia pesado, pedia carona com um sorriso difícil de desconsiderar. Parei a camionete, ela sorriu novamente, entrou e deu um bom dia como se me conhecesse. A criança tinha pouco menos de dois anos e também sorriu; naquelas paragens o riso era fácil, o perigo era domínio da natureza com sua exuberância e desígnios.
O garoto tinha olhos verdes,aparência saudável. Perguntei como se chamava, ela respondeu que seu nome era Frodo. Frodo? Perguntei surpreso. Sim, disse ela. Juan ,o pai, é fã do Tolkien e o Senhor dos Anéis. Maior homenagem não poderia ele prestar ao autor que tanto reverenciava!
Assim conheci um Frodo de carne osso, cujo pai, um argentino de Mendoza, conheceu uma mineira de Poços de Caldas, saíram pelo Brasil 'mochilando' e foram parar na Chapada Diamantina.
Ela era artista plástica e o marido produzia pães artesanais, dia sim, dia não, que ela levava para a vila para serem consumidos pelos moradores e turistas, enquanto ele descansava e tomava sua dose diária de cannabis. A vida simples em sintonia com a natureza, com muitas distâncias e caminhadas era vivida em um ritmo inconcebível para seres urbanos como eu, que não acreditava, nem via via fadas e duendes em cima de árvores ou dentro de grutas.
No Vale do Capão tudo era cercado de uma certa magia e mistério, comuns às pessoas que povoam o mundo do realismo fantástico. Onde mais se realizaria um festival anual chamado Universo Paralelo?
Gente de todo o mundo chegava pra conhecer e ficava, atraídos pelo misticismo do local, pela beleza ou por mistérios que seres urbanos de sentidos domados são incapazes de perceber.
A estrada de terra cheia de curvas e buracos criava um balanço que desajeitava os ossos, chacoalhava o cérebro e, por algum motivo inexplicável, ia quebrando as defesas que criamos ao longo da vida.
Depois de alguns minutos em silêncio, Sara perguntou porque não desligava o ar condicionado e abria as janelas, afinal de contas era cedo e não fazia calor. Concordei, ela sorriu mais uma vez quando o vento entrou pelas janelas e o cheiro de mato e terra invadiu o ambiente.
Logo a seguir avistamos um sujeito mal encarado que também pedia carona. Sara disse que o conhecia e perguntou se podia dar carona ao seu outro marido. Outro marido? Sim, era o João Carranca, assim chamado porque era muito feio e sisudo mas tinha uma alma linda e um coração imenso. Eles se apaixonaram durante um evento do Universo Paralelo quando Sara descobriu que podia amar duas pessoas ao mesmo tempo. Juan resistiu inicialmente mas concordou porque amava Sara e não concebia uma vida longe dela. Assim ela passou a ter dois maridos e duas casas.
Ele deu bom dia, pulou na carroceria depois de acomodar Mocó, seu cão paraplégico, cujas pernas traseiras eram amarradas a um eixo com duas rodas. Devia realmente ter um coração imenso, quem mais carregaria um cão que não podia andar com as próprias pernas? Apesar da limitação, Mocó tinha um olhar de alegria que presenteava a qualquer um que se aproximasse.
João Carranca era professor primário na única escola da região. O prédio não passava de uma casa branca com quatro portas azuis, estilo colonial, muito simples mas muito bem cuidada. Uma das portas levava à biblioteca e as outras três à única sala de aula cujas paredes estavam repletas de desenhos e pinturas dos alunos. Havia também um teclado que era usado para as aulas de canto.
Ele ensinava todas as séries tudo que sabia e mais o que era obrigado a aprender por conta do ofício e da curiosidade que despertava em seus pupilos. Cuidava dos alunos como os filhos que não pôde ter pois ficara estéril devido a uma caxumba mal curada. A avó, Dona Quitéria, insistia que o excesso de chás, costume aprendido quando estudou na capital, havia tirado a sustança do seu sêmen e ninguém conseguia demovê-la daquela ideia.
Aliás, Dona Quitéria acreditava que a distância da natureza deixa os homens frouxos e as mulheres secas. Talvez tivesse razão. Não se pode desconsiderar a experiência de quem pariu treze filhos e criou dezoito. Cinco, filhos da sua irmã que perdeu o juízo e foi internada em um hospício em Feira de Santana. Toda família tem seus loucos, alguns soltos, alguns internados, alguns à espera do próximo surto.
No caminho para a vila passamos por Tiago Veloz; considerado o melhor guia do Capão, tinha um senso de direção e posicionamento espacial que dispensava GPS. Ele cresceu acampando nas montanhas, em grutas e cavernas e conhecia o lugar o suficiente para respeitar a natureza e seus caprichos.
Tiago sorriu para Sara, acenou e seguiu seu caminho com os três turistas que o acompanhavam, todos brancos e com a pele vermelha de quem subestimou o sol da Chapada. Um deles chamava a atenção pelos mais de dois metros de altura e um boné vermelho com uma enorme cruz branca.
Tiago foi um dos melhores alunos que João teve mas se estranharam porque a criatura parecia suplantar o criador com seus questionamentos intensos.
Ao chegar à vila deixei os passageiros no Largo do Espeto onde um conjunto tocava baião animadamente. Estacionei e fui até a Licoteria do Seu Palito comprar um licor de jenipapo, especialidade da casa.
Nunca entendi porque o chamavam de palito pois de magro não tinha nada. Era um mulato alto e gordo, cabelos black power, sorriso largo e uma daquelas pessoas que gosta de gente. Adorava beber, interagir e fez do prazer o ofício ao abrir a licoteria. Na porta havia uma placa : Aqui há licores para dores, para amores, para alegria e para a alma.
Era um ponto de encontro na vila onde turistas, bichos-grilo e toda a gente parava para beber, conversar e consultar Seu Palito, uma mistura de padre e analista, ele tinha sempre a palavra certa que acalmava espíritos, reduzia tensões e encontrava soluções para os mais variados conflitos humanos, tudo ao ritmo e sabor de um de seus licores.
Foi buscando alívio para a alma que Eliete, uma médica clínica de Salvador, entrou na Licoteria há duas décadas, se apaixonou por Seu Palito e a Vila ganhou um posto de saúde. Os amigos nunca entenderam a mudança radical mas ela encontrou na Chapada e nos braços de Seu Palito o que nunca havia descoberto antes.
Não é à toa que virei repórter: adoro observar o que acontece e a vida se desenrolar na minha frente em histórias. Comecei a falar e nem me apresentei. Meu nome é Olímpio Holanda pois meus pais adoravam esportes, literatura e história. Cresci correndo, pulando, nadando, ultrapassando limites e aprendendo sobre a vida e a arte.
Sou repórter do Correio do Sertão e vim para a Vila do Capão investigar os cinco suicídios que aconteceram na Cachoeira da fumaça em seis meses, o último ocorreu hoje. Todos eram turistas, não apresentavam comportamentos anormais até o momento que chegavam na pedra acima da garganta da cachoeira, miravam as águas que despencavam de uma altura de 300m, ficavam em silêncio por alguns instantes e se jogavam, sempre tendo um grupo como testemunha.
As mortes ganharam os jornais e as redes sociais criaram teorias conspiratórias que envolviam moradores descontentes com a invasão de turistas, envenenando-os com alucinógenos, a abduções por ET's e o prenúncio do fim do mundo, que ocorreria com milhões de pessoas se jogando em cachoeiras.
Vim para investigar, descobrir e relatar o que de fato aconteceu. Comecei meu trabalho procurando algo comum aos cinco suicídios, um fio condutor, algo que indicasse um padrão ou me desse uma pista, um ponto de partida.
Após algumas entrevistas e conversas me recomendaram ir à Licoteria do Seu Palito pois tudo que acontecia na vila, de alguma forma, era lá registrado.
Seu Palito me contou que conheceu os cinco suicidas e que quase todos lhe pareceram tão normais quanto qualquer turista, gente ansiosa e agitada que aparece o ano inteiro.
Quase todos? Perguntei. Sim, havia um vara-pau gago que sempre usava um boné vermelho. Era um suiço chamado Gianretto.
-Veio aqui várias vezes tomar licor de jenipapo e perguntar sobre o melhor lugar para construir uma casa, onde teria a melhor vista e haveria terrenos à venda.
-E o que o senhor disse a ele?
-Sugeri que contratasse um guia e fizesse o maior número de trilhas possíveis e, quando identificasse a sua vista favorita, voltasse aqui e indicaria o dono das terras e como comprar um pedaço delas.
-E ele?
-Seguiu meu conselho até que se jogou da Cachoeira da Fumaça essa semana.
-Imagino que suicidas não tenham planos de construir casas.
-O gringo engasgava com as palavras mas os olhos eram de quem não estava emperrado na vida. Soube até que andou saindo com Pai Ghandi e estava entusiasmado.
Pai Ghandi era uma mistura de pai de santo e guru indiano que tinha um espaço místico chamado de Ateliê das Almas e dos Movimentos, onde os seus seguidores praticavam rituais que envolviam danças, meditação e, diziam algumas más línguas, sexo grupal.
Pai Ghandi era conhecido por sua atração por loiro altos e pelo chá de ervas cuja fórmula era tão secreta quanto o que acontecia após o consumo em um ritual chamado de Transcendência Corporal Induzida. Decidi entrevistá-lo.
Fui ao ateliê, me apresentei e Pai Ghandi concordou em ser entrevistado.
-O senhor conheceu o Gianretto?
-Conheci muito bem. Um gringo porreta e muito interessado nas coisas da alma e do corpinho também. Quer dizer, daquele tamanho, do corpão!
-Vocês tiveram um relacionamento?
-Vixi, que coisa pra se perguntar? Indiscreto você, moço?
-Essa informação não será revelada, Pai Ghandi, mas é importante que eu saiba a verdade.
-Digamos que ele participou de rituais de libertação mais íntimos.
-O senhor notou alguma depressão, alguma tendência suicida?
-Meu filho, aquele gringo gostoso ficava louco mas era por outros motivos. Estava até pensando em mudar para o Capão.
As informações dadas por Pai Ghandi foram corroboradas pelo relato do Seu Palito e de outros moradores. Mais intrigante ainda o fato que os outros suicidas também não darem nenhum sinal de depressão, angústia ou qualquer distúrbio psicológico.
Continuei a entrevistar os donos de pousadas onde os suicidas ficaram, pessoas que tiveram contato com eles e nada de novo apareceu. Comecei a pensar que talvez precisasse de ajuda profissional e por sorte, ela veio.
Climério Lupa era conhecido nos meios policiais como o chefe do CSI Bahia, dado ao grande número de crimes por ele solucionados. Além das técnicas científicas forenses ele também jogava búzios para obter alguns esclarecimentos e dicas dos desencarnados, como dizia ele.
Era magro, alto, careca, chapéu panamá, um bigode fino e preto (devidamente tingido) e um terno de linho branco impecavelmente engomado.
Fui apresentado a ele na licoteria onde conversamos longamente apesar da resistência inicial pois não gostava de jornalistas curiosos que, segundo ele, atrapalhavam as investigações e escreviam baboseiras enormes.
Apesar da implicância com a imprensa, gostava do mito em volta de seu nome criado por jornalistas que descreviam seus feitos. Com a fama o apelido de Lupa, por ver o que ninguém enxergava, foi incorporado à certidão de nascimento.
Notava também um certo prazer com a própria celebridade quando pessoas se aproximavam para pedir um selfie com ele. Levantava-se, ficava empertigado, procurava sempre o melhor ângulo e produzia um sorriso meio Monalisa ao colocar o chapéu panamá.
Depois de algumas interrupções continuamos nossa conversa e Climério Lupa me explicou sua metodologia de trabalho em detalhes e ao se despedir citou o Barão de Itararé: 'Tudo seria fácil se não fossem as dificuldades'.
O foco do trabalho de Climério Lupa era buscar o fio condutor, o ponto em comum entre os aparentes suicídios desconexos, um motivo, um interesse que levasse aqueles turistas (sem vestígios de qualquer anormalidade) a terminar com as próprias vidas diante de testemunhas.
Seu Palito achava que ET's abduziram e transformaram aquelas pessoas, teoria essa que passou a ter mais crédito após objetos voadores esféricos que tinham em torno de si luzes de neón verde, começaram a aparecer perto do Morro do pai Tomás. Mais de vinte testemunhas deram relatos precisos e coincidentes.
Era bem verdade que todos os depoimentos vinham da Cochama (Comunidade do Chá Mágico), cujas pessoas eram conhecidas por vagar pela noite sob efeito do transe causado pela ingestão do famoso Chá de Cabuçu Dourado.
Em defesa dos depoimentos temos que convir ser difícil todos terem a mesma alucinação em dias diferentes, em grupos diferentes; mas a Cochama era famosa por produzir pessoas e histórias surpreendentes como o ex-padre que achou a salvação, alegando que se tornara uma onça, se mudou para o Vale do Pati e, vez em quando, era encontrado vagando nu pelas matas como se uma quadrúpede fosse. A transformação do padre era também atribuída aos Et's por Seu Palito.
Após jogar búzios sobre a pedra na garganta da Cachoeira da Fumaça, de onde os suicidas saltaram, Climério Lupa alegou ter algumas pistas e se dizer estarrecido porque os espíritos informaram que não sabiam que haviam se suicidado.
Estranho, muito estranho! Todos os cinco alegaram que não queria morrer e foram surpreendidos ao acordar na outra dimensão.
Os búzios nunca mentem, dizia Climério!
Encontrei a Sara no Café Criolo, um ponto de encontro de artistas e apreciadores do café orgânico da região. Dividimos uma mesa enquanto ela esperava por João Carranca que estava atrasado. Ela tomava calmamente um café com leite e apreciava um bolinho de tapioca.
Após alguns minutos de conversa perguntei como ela administrava dois maridos. Ela sorriu e disse que havia situações difíceis que demandavam jogo de cintura e paciência mas os homens são seres muito previsíveis, o que facilita muito.
Como assim? Perguntei!
-Homens precisam de rotinas, preferem sempre a repetição e gostam de se sentir únicos mesmo quando sabem que não são. Acontece com filhos e maridos.
-Gostam de ser enganados?
-Não precisam ser enganados, precisam da verdade mesmo que apenas momentânea.
-Não alcanço esse conceito.
-Eu também já fui assim, meu caro mas aprendi com a vida e com as músicas. É tudo tão passageiro, não temos controle de nada e é como naquela música do Dalto:
Minha cara, pra que tantos planos?
Se quero te amar e te amar
E te amar muitos anos
Hum! Tantas vezes eu quis
Ficar solto
Perguntei se ela aceitaria que os maridos quisessem ficar soltos, e tivessem outras esposas. Ela sorriu alto e disse que sim, até porque isso permitiria que ela tivesse mais um marido.
-Mais um?
-Porquê não?
Após dois cafés e algumas doses de filosofia da Sara me despedi e, ao sair passei pelo Tiago Veloz que voltava de mais uma trilha.
Climério Lupa continuava sem entender porque os espíritos revelaram não terem consciência dos próprios suicídios. Estariam eles em um estado de transe? Teriam eles usado algum alucinógeno? Essa hipótese não fazia sentido porque as testemunhas alegavam que eles, apesar de ficarem calados durante toda a trilha, não apresentaram outro comportamento estranho até o momento do salto.
Além do mais os os pequenos comerciantes locais de drogas, alucinógenos e afins ( respeitada da comunidade) negaram terem fornecido para os suicidas. Sob pressão do Climério e com ameaças de serem enquadrados como traficantes, continuaram negando até o final do interrogatório, o que indicava que falavam a verdade.
Após mais investigações e novas consultas aos búzios Climério foi até Lençóis solicitar ao juiz mandados de busca e apreensão e quebras de sigilos telefônicos e de internet. Havia chegado a potenciais suspeitos e precisava buscar evidências.
O juiz resistiu em dar mandados baseados em evidências metafísicas mas concordou porque conhecia Climério, sabia da sua competência e justa fama.
Apesar do choque inicial a Vila do Capão lentamente voltava ao seu ritmo lento normalmente arrastado. Não surgiram novas teorias conspiratórias mas a Vila precisava de respostas! Não que houvesse preocupação do impacto dos acontecimentos sobre o turismo; ao contrário: havia iniciativas para limitar o fluxo de turistas, inclusive a recusa em asfaltar a estrada que dava na cidade mais próxima.
João Carranca cruzou com um grupo que voltava da Trilha da Cachoeira da Fumaça e estranhamente não cumprimentou ninguém, passou pelas pessoas como se não as enxergasse, caminhava calmamente mas de um jeito estranho e robotizado.
Chegou até a pedra sobre a garganta da cachoeira, olhou em volta como se buscasse alguém ou para se certificar que estava só, era difícil saber. Deu três passos para trás como se estivesse em dúvida, ajoelhou-se e ficou parado por um período como se resistisse a algo. Levantou-se e seguiu até a ponta da pedra, parou e como seguisse alguma instrução preparou-se para o salto que terminaria com sua vida.
Ao abrir os braços e começar a se inclinar para a frente foi puxado para trás por Sara que o havia seguido quando notou seu comportamento estranho.
O puxão provocou sua queda; ao cair bateu a cabeça e ficou desacordado por alguns momentos. Quando acordou ficou surpreso com o abraço e o choro da Sara, não lembrava do que estava prestes a fazer nem de mais nada.
Sara contou o que havia acontecido e ele não sabia explicar porque se tornaria o sexto suicida na Vila do Capão.
Voltaram para a vila e decidiram procurar Climério Lupa para relatar o ocorrido.
Climério Lupa chegou à Vila com disposição e energia para resolver o Caso dos Saltos para a Morte, ou simplesmente o Caso dos Saltos como ficaram conhecidos os misteriosos suicídios.
O primeiro mandado de busca e apreensão foi para a o Ateliê da Alma e dos Movimentos, sob protestos veementes de Pai Ghandi que se recusou a abrir o armário onde guardava seu estoque de ervas para seus famosos chás.
Colocou-se na frente do armário, abriu os braços, as pernas e começou (aos berros) a discutir com Climério Lupa e dois policiais que o seguiam.
-Terão que sacrificar um xamã, um curador de almas para abrir essa porta.
-Acho que o sacrifício valerá à pena!
-Bárbaros, bárbaros! Agora entendo como monges tibetanos são assassinados!
Após ser calmamente retirado da frente do armário e entregar a chave para evitar o arrombamento, Pai Ghandi se jogou no chão e desmaiou. Rosecler, seu assistente transexual, o carregou até o sofá próximo da janela. Ele despertou, pediu água e exclamou: ' Sabia que a polícia nos perseguiria ainda mais depois do Bolsonaro! '
Cioso do seu dever e da sua conduta sem preconceitos Climério Lupa vasculhava o armário onde encontrou uma caixa de madeira. Ao abrí-la Pai Ghandi deu um grito e voltou a desmaiar.
A caixa continha pequenos cartões com nomes e o que pareciam souvenirs. Após cuidadosa observação, Climério descobriu os nomes de quatro dos cinco suicidas.
-Melhor acordar o Xamã pois preciso de algumas explicações.
O Xamã desfalecido acordou e deu explicações convincentes sobre os encontros com os quatro suicidas. Os mesmos não passaram, como disse ele, de rituais de Transcendência Corporal Induzida.
A caixa de madeira e os souvenirs eram apenas um fetiche, uma recordação de todos aqueles que transcenderam corporalmente e terminaram nos seus braços e na sua cama.
Como não havia nenhuma outra evidência que ligasse os saltos aos souvenirs ou a todos os suicidas (nem todas as vítimas estiveram no ateliê), Pai Ghandi passou apenas a uma 'person of interest', como se diz nos seriados americanos.
Após outras buscas que não levaram a lugar algum, Climério Lupa finalmente chegou ao culpado após interrogatório. O suspeito foi confrontado com às evidências, pressionado longamente e finalmente confessou como levou à morte cinco pessoas.
A vila inteira ficou chocada com a notícia que correu rapidamente, como toda notícia ruim, e deixou a todos estarrecidos. O suposto criminoso era uma pessoa estimada por todos, sem nenhum episódio de violência, ao contrário, sempre amável, alegre e prestativo.
O que tornava o caso ainda mais surpreendente é que, apesar de ter confessado ser o autor, ele não explicou o que o levou a cometer ato tão cruel com pessoas inocentes e desconhecidas.
Opiniões, pareceres de pretensos peritos e teorias conspiratórias de todo tipo não conseguiam explicar porque Tiago Veloz se tornou um assassino. Onde existe crime existe um motivo e Climério Lupa jurou que o descobriria.
Diante da avalanche de perguntas, Climério Lupa manteve a calma e vaticinou: antes de chegarmos ao porque, precisamos entender o como.
O como foi obtido após mais um longo interrogatório. Tiago Veloz explicou que tudo começou com um curso de hipnose feito através da internet, aperfeiçoado com as seis irmãs e dez sobrinhos como cobaias e finalmente com um turista holandês,
Dr. Cornelius Van Haghen, psiquiatra e especialista em hipnose que morou alguns meses na vila e decidiu ajudar a Tiago acelerar seu aprendizado.
Climério Lupa chegou a Tiago Veloz quando descobriu que todos os suicidas tiveram o mesmo guia e, ao ao quebrar seu sigilo telefônico e de internet, descobriu os cursos de hipnose e as trocas de mensagens com Dr. Cornelius.
Após excluir os outros suspeitos, prendeu Tiago que confessou mas se recusou a explicar porque, até passar por uma catarse, gritar, chorar e após se acalmar...
-Eu não aguentava mais esperar.
-Esperar o que, Tiago?
-Esperar por ela.
-Por ela, quem?
-Ela não se decidia e eu não conseguia mais nada com outra mulher.
-Ela, você não conseguia.. o que está querendo me dizer?
-Eu fiz tudo por ela.
-Por ela, quem?
-Pela Sara!
-Sara dos dois maridos?
-Sim, ela mesmo.
-Ela disse que o marido não aceitaria mais um.
-Então tive a ideia de hipnotizar e simular os suicídios dos gringos.
-Porque o suicídio do João Carranca não levantaria suspeitas e você poderia ter a Sara finalmente!
-Isso mesmo.
E mais uma história foi escrita pelos loucuras que são realizadas em nome do amor!
Sergio Cavalcanti
© Copyright All rights reserved by NationSoft