Contos

Escrever ficção é ter permissão para sonhar, viajar, inventar realidades e personagens, é como viver várias vidas.
Meus contos são reflexos do que vi, ouvi, vivi, inventei e misturei tudo no meu iquidificador cognitivo.

Carta da Pandemia


Minha Cara Roberta,

Andamos afastados pois trilhamos caminhos diferentes, nos reencontramos ano passado mas, ironicamente estamos a duas praças de distância e separados por esse confinamento que é um báu de contradições.

O tempo se arrasta a cada dia mas o final da semana chega rapidamente, os planos importantes adiados (ou interrompidos) parecem não ter tamanha importância, o senso de urgência que angustiava agora cria uma certa anestesia que atinge a cabeça e o coração.

A morte que sempre se escondeu - ou era jogada pra debaixo do tapete - agora aparece sem cerimônia em conversas, em incansáveis programas jornalísticos que manipulam nossos medos como fazia com maestria o Hitchcock; a diferença é que os suspenses dele duravam duas horas.

Vejo o medo estampado na cara das pessoas nas filas no supermercado, nas áreas comuns do meu prédio e nas incansáveis tentativas de obter uma estatística ou explicação que traga algum alento diante do fim do mundo que parece tão próximo.

Você sempre me achou exagerado e hipocondríaco! Lembro disso quando tento criar um nexo em tudo que está acontecendo, me convencer que meu sistema imunológico não me deixará na mão, e sem ar na fila por um respirador numa UTI, de um hospital de campanha no Estádio do Pacaembú.

Seria de uma ironia profunda morrer exatamente no local da trave do Pacaembú, não é verdade? Ouviria a torcida gritando meu nome e bum! Morri! Corta! Lá estaria eu no paraíso cercado por 37 virgens. Na minha idade não teria paciência para uma sequer e, ao que me consta, não me converti ao islamismo.

Mas voltando à pandemia, alterno mini pânicos com doses de otimismo e me descubro bipolar e com certa compulsão para compras on-line. Já me preparei para o Armagedom com utensílios de todos os tipos, de panelas autolimpantes, carregador de bateria com célula solar, colchão inflável e até um detector de radioatividade. Compro tudo em trinta e seis prestações pois tenho a certeza que o juízo final virá antes do juros final do cartão de crédito.

Tenho recebido ligações e mensagens de gente que não via há anos. Houve pedido de desculpas por coisas que nem me lembrava a causa do desentendimento, mensagens escritas apenas GRATIDÃO. Essas não tenho certeza se eram apenas mais uma corrente virtual ou agradecimento impessoal de quem não tem humildade para agradecer na primeira pessoa.

Participei de uma videoconferência (primeira e única), a tal de ZOOM, com quarenta e oito pessoas. Meu monitor parecia aquelas telas de porteiro de prédio, com as imagens espalhadas na tela como ladrilhos de uma parede eletrônica. É muita gente! Todos falando ao mesmo tempo, querendo ser engraçados mas não consegui ouvir nenhuma piada até o final! O que o ser humano é capaz de fazer para espantar o tédio, hein?

Depois de dois minutos desliguei e saí à Francesa mas ninguém notou, a não ser o chato do Alcides, lembra dele? Aquele que virou fiscal da Receita Federal e nas reuniões anuais da nossa turma se gabava dos milhões em multas que aplicou!

Assim que desconectei ele mandou uma mensagem de whatsapp perguntando quando entraria novamente, que eu não sabia o que estava perdendo, que deveria voltar. Faltou pedir cópia da minha declaração de renda. Disfarcei e bloqueei o chato.

O 007 tinha licença para matar e a Pandemia me deu licença para bloquear, vazar, desligar, desconectar, dizer não e me recusar a perder tempo com coisas inúteis.

Espero que você esteja bem, tomando os devidos cuidados e continue acreditando na redenção do ser humano. As mensagens e filmes de como seremos seres melhores depois do fim do mundo parecem terem sido feitas pra você e para essas pessoas com altas doses de utopia, que esquecem o que a história ensina: após cada pandemia o mundo muda mas as pessoas seguem irremediavelmente iguais.

Um beijo,

Antonio


Sergio Cavalcanti