Escrever ficção é ter permissão para sonhar, viajar, inventar realidades e personagens, é como viver várias vidas.
Meus contos são reflexos do que vi, ouvi, vivi, inventei e misturei tudo no meu iquidificador cognitivo.
Nasceu para usar a palavra como espada ou escudo. A parteira se assustou com o choro potente, que avisava feito trombeta, a chegada ao mundo de alguém importante.
José Antonio Marcondes de Holanda do alto dos seus quase dois metros, tinha voz grave e alta, mistura de Pavaroti com Barry White, que dependia da circunstância ou da liturgia para ser suave ou até mais estridente, de maneira a reforçar o argumento, atrair atenção, distrair o oponente ou simplesmente brilhar nos palcos judiciais.
Virou criminalista menos por paixão e mais por lealdade ao mestre que, identificando um talento inequívoco, convidou-o para ser seu estagiário. Dr. Amaral Farias era criterioso, exigente, mercurial, um ícone da advocacia soteropolitana. Um convite dele era um verdadeiro chamado, uma convocação, um prêmio e uma distinção. Ninguém em sã consciência rejeitaria aquele convite e José Antonio foi seguir seu destino.
Dr. Amaral sempre foi mais que um mentor, era pai e uma espécie de escultor que talha a pedra, observando e projetando os ângulos perfeitos.
'Seu corpo é seu instrumento, José Antonio. Seu olhar, seus gestos e sua voz podem intimidar, seduzir os jurados, confundí-los quando necessário, trazer compaixão ou prepará-los para capitular, renderem-se às suas versões ou às dúvidas que levantar'.
Aprendeu com ele a postar a voz, andar ereto, inclinar a cabeça, ser dramático, eloquente, contundente, demonstrar compaixão, revolta, ira e trazer à tona o que se esconde nos porões da alma humana.
Aprendeu sobre leis, código penal, como usá-los e o sistema a seu favor e para seus clientes que, em quarenta anos de profissão, foram muitos e diversos, verdadeiro compêndio do que leva seres humanos a cometer crimes.
Alguns deles o tornaram famoso, admirado, invejado, outros odiado. Como o crime da Ladeira da Barra, quando o herdeiro de uma das famílias mais ricas do estado foi acusado de matar os avós para, digamos assim, apressar o processo sucessório.
'Meus Senhores e Senhoras do Júri, às duas vidas terminadas e oferecidas ao crime e ao mal, não podemos adicionar a de um jovem inocente, enquanto houver dúvidas e dúvidas existem em todos os cantos desse processo. Não à injustiça, não à sede de vingança e linchamento.'
Disse as últimas frases ao se aproximar dos jurados e usar o timbre grave e forte da sua voz, para demonstrar que acreditava na inocência do jovem e que indignado estava.
A batalha judicial foi épica mas no final Dr. Holanda prevaleceu, o rapaz foi absolvido principalmente porque as principais provas utilizadas pela promotoria foram, uma a uma, desmontadas, desconstruídas e desqualificadas pelo Dr. Holanda.
Ele ficou rico advogando para ricos e poderosos mas não era só o dinheiro que o motivava. Sabia que tinha um dom, que fora agraciado pela genética e pelo destino e que precisava retribuir.
A retribuição se dava pelo uso de dez por cento do seu tempo para defender aqueles cujos problemas eram muito superiores aos recursos disponíveis.
O caso de Arlindo Capoeira, que agitou a sociedade local, é um bom exemplo dos princípios do Dr. Holanda. O jovem foi acusado de estuprar uma colegial na ladeira atrás da Igreja do Bonfim numa noite fria de inverno. A vítima foi levada a identificar Arlindo apesar de várias vezes dizer que não tinha certeza e que o soco que levou no supercílio provocou um sangramento intenso que prejudicava sua visão.
Após algumas entrevistas com seu cliente, Dr. Holanda, que tinha a habilidade de interrogar como se um padre no confessionário fosse, descobriu que o rapaz de vinte anos tinha um caso com a esposa balzaquiana de um deputado, que era muito amigo de um delegado, que coincidentemente foi o responsável pela prisão e pelo inquérito.
O deputado, muito próximo do governador, mandou inúmeras mensagens ao Dr. Holanda, alertando-o para as consequências de defender criminosos hediondos. As mensagens reforçaram a tese da vingança e da armação.
Ao reunir provas dos delitos cometidos pelas autoridades e ameaçando expor a vida íntima do ilustre parlamentar, juiz,acusação e defesa encontraram um jeito de arquivar o processo por falta de provas, evitando um julgamento escandaloso.
O abraço e as lágrimas de agradecimento de Arlindo Capoeira ficaram marcados na memória de Dr. Holanda que sempre repetia ser aquele gesto mais compensador que qualquer honorário que recebera.
Poucas vezes foi contra seus princípios. Um deles era não se envolver com clientes. Mas a Margherite, ah a Margherite!
Quelqu'un M'a Dit. Parait qu'le bonheur est à portée de main. Alguém me disse. Parece que a felicidade está à mão.
Essas duas frases ela pronunciava com um charme de quem prometia o paraíso.
Margherite foi presa por portar uma quantidade de cédulas de cinquenta euros falsificadas.
'Une petite quantité, docteur'. A frase soava como uma súplica saindo daqueles lábios cujo contorno desenhado por um batom vermelho, abalava o sistema cognitivo do experiente advogado.
Com a paciência dos seduzidos, Dr. Holanda explicou que mil notas não eram uma petite quantité e que o caso era sério e demandava cuidados.
As lágrimas e o desespero de Margherite prevaleceram sobre os sensores e a cautela do homem que precedia o criminalista.
Usando de tudo que estava a seu alcance, das leis a favores devidos, Dr. Holanda conseguiu a liberdade de Margherite. Foram para a praia de Barra Grande na Ilha de Itaparica e por uma semana, Dr. Holanda teve a sua própria Brigitte Bardot.
Na alcova tropical alguns segredos revelados por Brigitte foram suficientes para a loucura da paixão ser substituída por gigantescos sinais de perigo. Foi o suficiente para que o fim da semana trouxesse também o fim do caso. Margheritte voltou para a França levando um pedaço grande do coração do José Antonio e deixou desde então a sensação que a felicidade está à mão, como alguém disse a Margheritte, mas pode ser breve, breve demais.
Ultimamente andava ainda mais nostálgico, uma certa melancolia estava próxima, evocando memórias e saudades. Sim, andava muito saudoso de algumas pessoas e reagiu quando falei da mulher que amei.
'Eu sinto o mesmo. Margheritte foi embora muito cedo... A saudade vai mudando a forma de sentir. Mas nunca passa. Essa semana, na quarta-feira, salvo engano, quando abri o jornal pela manhã, vi uma foto que me lembrou uma foto dela.. Desabei, num choro sozinho que só pertencia a mim, assim como o amor que ainda sinto por ela...'
Chorei com ele. A pureza dos sentimentos mais sentidos, provoca dores lancinantes, que só um coração doído pode saber o que é.
Lágrimas corriam sobre as rugas daquele rosto que parecia cansado mas os olhos mantinham a mesma energia e vitalidade. A voz embargada era mais comum a cada dia. Parece que se perdia em suas memórias, suas saudades e seus amores mas, de alguma forma encontrava a energia e a disposição para seguir no palco onde brilhava.
Sergio Cavalcanti
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