Contos

Escrever ficção é ter permissão para sonhar, viajar, inventar realidades e personagens, é como viver várias vidas.
Meus contos são reflexos do que vi, ouvi, vivi, inventei e misturei tudo no meu iquidificador cognitivo.

Madrugadas


Três horas da manhã : ela buscava o sono e vestígios da própria alma que parecia ter se deslocado para uma outra dimensão estranha e distante. Naquele horário onde era tarde demais para concluir algo que valesse à pena ou cedo demais para começar, ela tentava organizar os pensamentos e buscar o sentido que as madrugadas solitárias se encarregam de esconder com cuidado e uma certa crueldade.

Foi até a janela e contemplou a paisagem urbana noturna do centro da cidade, onde ônibus, boêmios e mendigos adormecidos pintavam um quadro dramático. Um casal discutia enquanto atravessava a rua; ele parou no meio do caminho e levantou os braços enquanto ela seguia falando sem olhar para trás. Um motoqueiro quase atropelou o sujeito que saiu correndo atrás da mulher que, a essa altura, tinha desaparecido. Foi tudo muito rápido como os eventos que mudam vidas e nos roubam o sono.

Voltou ao sofá, tomou o resto do vinho tinto daquela garrafa que havia guardado para a ocasião especial que desenhou em sua mente e em seus sonhos. Foi até a biblioteca e pegou o LP, sim, se recusava a aceitar músicas digitais, gostava do barulho da agulha sobre o disco preto, a espera pelo começo da melodia e o som puro que alcançava um lugar lá dentro, bem fundo.

A música trazia lembranças, emoções, dores, alegrias, tudo misturado e sabe lá o que, o encontro (ou desencontro) da mente e do coração era capaz de produzir. Bebeu mais um pouco do vinho tinto que lembrava sangue, olhou o quadro na parede e a foto do vulcão Etna em erupção a transportou para a Sicília e para os dias maravilhosos que viveu em Taormina.

Recusava-se a viver de memórias ou ser nostálgica porque o passado é um lugar perigoso, cheio de armadilhas e areia movediça. Aquela moça de vestido branco, lenço na cabeça e óculos escuros sentada na mesa da cantina não era ela, havia morrido com tudo que representava. Chorou de saudades do que já não mais sentia.

Voltou para a janela, a cena havia mudado, o silêncio e a falta de movimentos fez daquele minuto uma eternidade, interrompida pelo barulho de uma ambulância que passou desesperada como provavelmente estava seu passageiro.

Suspirou,pensou em pegar um cigarro mas lembrou-se que não fumava, odiava o cheiro e era alérgica a fumaça. Não sabia porque tinha tido tal ideia mas nada parecia fazer sentido mesmo.

Teve fome e frio quando abriu a janela e uma rajada de vento tomou conta do ambiente,mas se recusava a cuidar de suas necessidades àquela hora. Na verdade nem lembrava da última vez que cuidou de si mesma.

Trocou o LP porque o Tom Jobim tinha o dom de acalmá-la desde que se apaixonou por ele na juventude. Foi até o sofá, pegou o cobertor e ficou quieta até ver os primeiros raios da manhã.


Sergio Cavalcanti