Contos

Escrever ficção é ter permissão para sonhar, viajar, inventar realidades e personagens, é como viver várias vidas.
Meus contos são reflexos do que vi, ouvi, vivi, inventei e misturei tudo no meu iquidificador cognitivo.

Jogo de Memórias


Não sei a minha idade, não reconheço pessoas que agem como se fossem familiares, desconheço essa casa que me abriga mas tenho muitas lembranças desconexas, flashes de eventos e situações onde personagens marcantes ganham vida e trazem revelações, muitas revelações.

Sinto-me ora um confidente, ora testemunha dessas almas angustiadas que precisam contar suas histórias, descarregando o peso das próprias culpas ou simplesmente buscando se ouvirem a si mesmas. Muitas vezes não entendo o que dizem ou o que desejam de mim; as narrativas me perseguem como uma música que gruda na minha mente, me fazendo repetir o refrão involuntariamente.

Algumas vezes sou um mero escrivão a registrar depoimentos, outras participo de diálogos marcantes, revivo situações que trazem de volta emoções fortes que desenterro contra a minha vontade.

Lembro da minha mãe preocupada com o racionamento durante a Segunda Guerra, os lamentos quando um parente querido partiu para a Itália como membro da Força Expedicionária Brasileira (FEB). O parente não sei quem ao certo quem era (talvez o Tenente Fabrício),mas a esposa que deixou, ah essa eu lembro de cada detalhe. Como poderia esquecer da Almerinda, sempre perfumada como se tivesse saído do banho, seus vestidos de linho, batons vermelhos nos lábios carnudos de mulata, sorriso sedutor e o andar que ressaltava o valor de suas curvas e do que insinuavam.

Aparentemente a vida da Almerinda se resumia a esperar as cartas do marido militar, narrar os detalhes das mesmas como se fossem capítulos de uma novela cuja audiência se destacava pelo interesse, fidelidade e devoção.

Coronel Torquato é visitante frequente: os olhos verdes brilhantes, parcialmente cobertos por sobrancelhas densas que formam uma cauda nas pontas e dão a ele um ar de inquisidor que tudo pode questionar. Dia desses descobri uma foto sua em preto e branco ao lado de uma senhora e cercado por adultos e cinco crianças, três meninas e dois garotos; imagino que seja a própria família.

Fotografias estão em toda parte, são muitos álbuns espalhados pelos cômodos, dispostos de maneira que os acesse facilmente. Para quê? Qual o intuito?

Fotógrafos são mágicos que congelam o tempo na memória, mas ao ver as imagens congeladas não sei o que fazer delas nem como estabelecer uma linha do tempo com as mesmas.Identifico pessoas comuns a todos eles, percebo que apresentam sinais da passagem inclemente do tempo mas isso é tudo e muito pouco.

Coronel Torquato vem a minha mente também em sons, vozes e músicas a ele associadas. Sim, Vivaldi e suas quatro estações trazem parte de festas e comemorações.

Vejo nitidamente uma banda que toca em uma inauguração: a primeira usina da Companhia de Força e Luz da Ribeira do Salto, fundada pelo Coronel Torquato. Ao lado dele cortando a fita está um senhor alemão, feição rígida, postura ereta. Sim, lembro dele, é o Dieter Kraus, engenheiro alemão, sócio do coronel e responsável pela construção e manutenção da usina.

Duas moças vestidas de branco me interrompem durante o dia para passeios, comida e remédios; acho que tentam me dopar pois não estou doente. Há também uma fisioterapeuta morena de olhos vivos e mãos mágicas. Ficou surpresa quando pedi que me beijasse. Sinto falta da mulher por quem fui apaixonado, não lembro seu nome nem o seu rosto mas as emoções brotam quando penso nela: memórias dos sentidos.

Olho no espelho e vejo um velho que desconheço; ele se movimenta lentamente, tem muitas rugas e uma certa tristeza no olhar.

Recuso-me a acreditar que sou eu ! A menos que viagens no tempo existam, minha vida não pode ter passado tão rápido. Tento lembrar da última vez que eu e o espelho estávamos de acordo, mas não consigo. A fisioterapeuta me traz lembranças da Almerinda e por isso quis tanto beijá-la.

Lembro do beijo que ela deu no alemão, de como se abraçavam, esfregavam seus corpos e a surpresa ao me verem. Pela reação do casal soube que descobri algo proibido. Almerinda conversou comigo, me fez prometer guardar o segredo que seria nosso. A partir daí surgiram uma certa cumplicidade e o débito que ela teria comigo. Quando nos encontrávamos ela mostrava carinho e seduzia-me, prometendo o que jamais daria. Ah Almerinda!

A moça de branco insiste que eu coma a salada. Não quero salada, porra! Quero sonhar com a Almerinda. Ela se afasta assustada com o grito e leva o prato.

Tratam-me como um inválido porque não consigo me lembrar de muita coisa e isso me irrita. Um homem sem memória está morto mas insepulto, vaga em busca do que esqueceu.

Lembro do meu precioso segredo e que Almerinda se tornou amante do alemão enquanto o marido lutava na Itália. É sempre assim: uns fazem amor e outros fazem guerra.

O estado de irritação cessa lentamente e me traz uma melancolia renitente. Cenas de um velório, o salão principal da Prefeitura,um caixão com a bandeira do Brasil sobre ele e uma banda militar toca o hino nacional. Após o discurso solene do Coronel Torquato e do prefeito, o marido de Almerinda é homenageado postumamente como herói de guerra.

Naquele dia entendi que mortes podem ser soluções, grandes soluções. Almerinda que estava grávida de Dieter,se casou quatro meses após o funeral do marido.

Tenho que andar nessa esteira; dizem que preciso de exercícios. Sinto-me como um hamster de laboratório ou, como diria o Machado de Assis em um de seus contos: ' à roda das salas ou do pátio, ao longo dos corredores, à procura do fim do mundo'.

Não penso no fim: nem do mundo nem do meu. Acho um exercício inútil tentar desvendar esse mistério antes da hora: gasta-se tempo de viver, energia e nada do que pensamos vai alterar o curso da vida.

Minhas pernas respondem aos meus comandos e ando para frente sem sair do lugar; tenho a mesma sensação que experimentei quando era casado com Valquíria.

Ela foi a pessoa mais rasa que conheci na vida, tinha a profundidade de um pires, não tinha opinião sobre quase nada e se mantinha em cima do muro esperando o vento, caída sobre si mesma, como uma biruta de aeroporto.

Não sei se me separei dela ou se ela morreu, o que, na verdade, não deve ter feito a menor diferença. Ela era uma dessas pessoas que vem ao mundo à passeio e, feito hóspedes perfeitos, entram e saem sem deixar vestígio algum.

A moça de branco mantém a atenção fixada em um aparelho que brilha, parece exercer sobre ela uma magia pois fica imóvel por muito tempo.

Desligue essa geringonça, Moça! Eu grito, ela toma um susto, se levanta, aperta um botão que faz a máquina diminuir a velocidade até parar; traz-me um copo d'água e uma toalha, que pego e passo no meu rosto suado.

Desço do aparelho e me dirijo para minha suíte. Um longo corredor recheado de portas me confunde. Paro e espero que a outra moça de branco indique o caminho até o banheiro. Ao chegar tiro a roupa apressadamente como se não soubesse o impacto da nudez; ela, constrangida, me deixa sozinho após ligar o chuveiro.

A água morna sobre meu corpo me traz lembranças da adolescência e dos banhos em que tive a companhia da Almerinda, apenas na minha imaginação e por alguns minutos.

Acordo cedo e observo a moça de branco dormindo na poltrona ao lado da minha cama. Ela tem apnéia e ronca desesperadamente. Jogo um copo no chão, ela acorda assustada; diverte-me a cena e faz as horas passarem mais rápido. Tenho tempo demais, a sensação é estranha pois já tive muita pressa, uma certa angústia em não conseguir fazer tudo que gostaria. Não sei se atingi os meus objetivos, realizei meus sonhos e, pior, quais eram eles.

Deve ser muito triste chegar ao fim da vida com a sensação de incompetência, de não realização, de ter vivido a vida errada ou vivido para nada. Pra mim era simples: estabelecia os objetivos e saía atrás deles, uma corrida contra o tempo e muitas vezes, contra mim mesmo. Na juventude era tudo mais simples: preto e branco, certo e errado, legal e ilegal. Muito mais fácil; ah a velhice traz uma complexidade pesada e inútil !

Já levantei e escovei os dentes enquanto você dormia, moça de branco. Pode voltar a dormir e a roncar.

Uma cena no Teatro Municipal de Praga visita minha mente constantemente. A arquitetura chama a atenção, o cenário europeu perfeito para o concerto de Vivaldi que me emociona, vejo pessoas vestidas de forma elegante e adequada ao frio. Na entrada do teatro mulheres usam casacos de pele e homens sobretudos de lã, são escuros na maioria. Há neve na calçada e as luzes amareladas criam um ambiente cinematográfico. A música toca a minha alma, que parece ter saudades do que vivi.

Ao fim do concerto decidimos andar pelo centro da cidade; chegamos ao Hotel Paris que fica próximo à Torre de Pólvora; a neve cai mais forte, sinto um abraço apertado, atravessamos a recepção onde um pianista toca blues; paramos por uns poucos instantes e nos dirigimos ao elevador em seguida; é antigo, tem uma porta pantográfica; somos os únicos dentro da caixa de madeira. A juventude se revela nos hormônios e na ânsia por tudo.

O elevador pára, a porta se abre e corremos até o quarto. Ao abrí-la o pé direito alto combina com o cenário romântico e a noite fria convida ao romance.

A moça de branco interrompe meus devaneios, estende a mão revelando três comprimidos que devem me manter vivo indeterminadamente nessa prisão. Mais uma vez coloco as pílulas na boca, faço que engulo e na primeira oportunidade me livro delas. Sempre me rebelei contra aquilo que me era imposto, sem que compreendesse porque. Hoje em dia não compreendo muita coisa mas não faço perguntas, nem quero respostas.

Estávamos todos reunidos no Bar do Juca Cipó, figura política influente em Ribeira do Salto. Naquela época a comunicação acontecia com a proximidade dos olhares e do olfato, que indicavam o que estava nas entrelinhas, escondido pelas palavras.

O bar parecia um grande quintal, mesas espalhadas em um grande gramado ao fundo, cercado de redes colocadas entre árvores frondosas; era assim de propósito pois pretendia criar uma atmosfera de familiaridade e intimidade; lá grandes acordos e conchavos eram estabelecidos, o futuro de políticos e da cidade traçados, tudo no fio do bigode e do punhal se necessário fosse.

Juca Cipó ganhou o apelido pois a mãe, Dona Jaciara, educava os filhos em uma época onde prevalecia o estilo Pinochet ao invés do Piaget; era linha dura com os sete filhos, especialmente com Juca, o mais rebelde.

Como instrumento de educação e correção Dona Jaciara usava um longo, brilhante e vistoso cipó para aplicar surras memoráveis, assistidas pelo público infanto-juvenil, que, alertado pelos gritos vindos do fundo da casa, corriam e se amontoavam sobre o muro para o espetáculo sádico, confirmando o ditado local que mato tem olhos e paredes tem ouvidos.

O pai de Juca, Seu Januário, era dono do cartório, trabalhador, cristão fervoroso, tradicionalista e conservador. Não aguentou a pressão social (e das suas convicções) quando a esposa se descobriu no candomblé, passou a frequentar um terreiro e a receber entidades. Foi demais para o casamento que acabou.

Dona Jaciara saiu de casa, foi para o terreiro, virou Mãe Jaci de Oxossi, abandonou o cipó e os filhos para seguir o chamado dos Orixás. Sempre admirei aqueles que, movidos pela fé e pelas convicções, são capazes de abandonar a vida que tem para buscar aquela que sonham.

Não me lembro se tive fé ou se a perdi algum dia, não trago comigo santos ou patuás; acho que sempre acreditei no destino que podia criar por mim mesmo.

No bar do Juca as crenças eram postas em xeque a todo momento; pude testemunhar como convicções podem ser compradas como uma mercadoria, como o caráter humano pode ser dissolvido no fogo brando do interesse.

Volto a lembrar da figura imponente do Coronel Torquato, sentado na mesa que estava sempre para ele reservado, em silêncio, observando e falando através do tempo de cada silêncio, cujo significado era decodificado pelos que o cercavam.

Ele e Juca tinham uma amizade de infância que resistiu ao tempo. Era o único a se dirigir ao coronel pelo primeiro nome - Aníbal - e não apresentar uma devota reverência.

Lembro de estar cercado por essa aura de poder que determina o comportamento das pessoas em volta, mas não lembro como e porque. Apenas sei que o poder isola e nos distancia de todos. Uma solidão como a que sinto hoje.

A moça de branco me traz um casaco, diz que a temperatura baixou. Visto-o, recordo uma tarde fria de inverno, nuvens densas no céu, pessoas de preto em volta de um caixão, que desce lentamente até que a cova o receba, flores são jogadas, ouço choros, lamentos e depois um silêncio de dor, daqueles que indicam o fim. Não sei quem se foi nem quem ficou. Sempre tive dificuldade em me localizar no espaço, agora não consigo me localizar no tempo tampouco.

O sol acabou de se pôr, demorou um pouco até que outra moça de branco acendesse a luz. As noites me parecem mais escuras e, de certa forma, me amedrontam. Já gostei das noites e das madrugadas quando o amanhecer trazia promessas. Hoje tenho a companhia dos fantasmas que aparecem sempre às três da madrugada, hora mágica para a literatura. Pego um livro antigo, capa de couro, letras douradas. Abro e há uma dedicatória singela assinada por Juliana. Ela fala do amor pelas letras e pelos sonhos, da presença eternizada pelas páginas e pela força de uma história. Ela escreve bem e sua caligrafia tem uma forma especial, as linhas são retas. Tive saudade dela sem saber de quem se trata.

Tempos estranhos! Vivo sob o efeito do que sinto, sem entender e sem buscar explicação. Talvez seja mais fácil assim. Quantas vezes procurei lógica no que sentia, tentei colocar uma moldura naquilo que não cabia em si, seguir o que achava que devia querer.

A moça da apneia chegou, deve ser hora de dormir. Coloco o livro sobre a mesa de cabeceira e me deito na cama. Ela me cobre como se fosse uma babá. Deseja-me boa noite, volta a sentar na poltrona e se prepara para mais uma noite. Sinto uma dor forte no meu peito que parece se rasgar por dentro, faço barulho, vejo pessoas entrando no quarto, imagens, olhares desesperados, um choque elétrico e mais nada. Sinto-me como um ator que permanece sozinho no palco quando a plateia está vazia.

Deve ser o fim do que já devia ter terminado há muito tempo.


Sergio Cavalcanti