Contos

Escrever ficção é ter permissão para sonhar, viajar, inventar realidades e personagens, é como viver várias vidas.
Meus contos são reflexos do que vi, ouvi, vivi, inventei e misturei tudo no meu iquidificador cognitivo.

Ruas sinuosas


Minha Cara Roberta,

Viajando pelo França cheguei àquela cidadezinha à beira mar onde estivemos há muitos anos, quando éramos jovens e apaixonados, havia inúmeras possibilidades, incontáveis promessas da vida e a eternidade cabia em nossas mochilas.

O azul do mediterrâneo ainda me faz confundir o céu com o mar, naquele festival de azuis em degradé. Os barquinhos, delicada e cuidadosamente coloridos, continuam no mesmo lugar,na pequena enseada formada pelo quebra-mar, como se esperassem a próxima temporada de pesca ou um canto da sereia que leve os marinheiros para uma nova jornada.

Andei pela cidade com a impressão que fosse te encontrar fotografando portas e janelas para sua coleção, deslumbrada com as cores e os segredos que as ruas estreitas escondem nas linhas sinuosas que formam. Ah, quanta história! Diria você, sem se cansar de imaginar e narrar o que ocorreu naquela casa de três pavimentos com uma chaminé torta ou naquela de pé direito baixo e porão, que se tornou um bistrô charmoso. Suas histórias pareciam tão críveis que ainda ecoam emoções e sorrisos hoje.

Passei pelo restaurante Caprice des Dieux.; aquele que você disse que tinha nome de romance e que usaria caso fosse escrever um livro. Ele continua lá, a mesma porta marrom, as mesmas janelas azuis abertas, vasos com flores coloridas pendurados compondo a bela imagem. Entrei, sentei, depois de algum tempo pedi desculpas e fui embora. Acho que tive medo de fantasmas ou de mais caprichos.

Pois é, minha cara, acho que os Deuses andaram caprichosos com nossas vidas! Caprichosos com a forma, o tempo e os caminhos que nos foram impostos. Sei que você deve ter torcido o nariz ao ler a expressão 'caminhos impostos'. Você acreditava tão piamente no tal do universo e na grande sabedoria que ele esconde. Eu queria ter sua fé ou a possibilidade de provar que estou errado definitivamente.

Sem muito filosofar perambulei pela cidade, flanando em nostalgia e deja vu, passando pelos mesmos pontos que chamaram nossa atenção e onde paramos para aquelas conversas regadas a vinho rosé ou café au lait!

Visitei também o Bar des Arts que mantém as fotografias e quadros de filmes famosos espalhados pelas paredes. Está bem mais velho e decadente mas mantém o charme e o excelente café. A imensa foto da Brigitte Bardot sentada na cama continua lá na mesma parede, no mesmo canto que acolhe uma mesa para dois, onde sentamos tantas vezes e fomos atendidos por aquele garçom mal humorado que apelidamos de Monsieur Chatô, lembra? O rosto grande, bochechas vermelhas, cabelo ralo, oleoso e um bigode que imitava o Salvador Dali. Ele não conseguia esconder a inveja diante da nossa felicidade e você o provocava ainda mais quando me beijava e sorria.

Minha alma hoje em dia se parece com as paredes do Bar des Arts, memórias penduradas ao invés de quadros, lembranças de tudo que vivemos. Tomei um café au lait por você e por nós dois. Também pedi aquele bolinho tradicional local que você tanto gostava.

Depois de sair do Bar des Artes fui até o Palácio Pan Dei. Continua sendo o imóvel mais imponente da rua estreita onde se localiza; hoje bem mais iluminado virou um hotel boutique mas ainda mantém o ar de guardião de memórias, zelando por seus mortos e suas histórias. Passei algum tempo na imensa sala que virou o lobby, apreciando as obras de arte e os móveis antigos mas não me demorei por lá.

Andei até tarde pelas ruas desertas como ando sozinho pelo mundo; carregando a saudade que tenho de você, vivendo um dia de cada vez, às vezes em lugares diferentes. Em constante deslocamento, de certa forma tento driblar o encontro com a verdade imutável da sua ausência.


Sergio Cavalcanti