Escrever ficção é ter permissão para sonhar, viajar, inventar realidades e personagens, é como viver várias vidas.
Meus contos são reflexos do que vi, ouvi, vivi, inventei e misturei tudo no meu iquidificador cognitivo.
Esposa entra esbaforida na cozinha.
-Alceu, tem um anão vestido de jogador de basquete em nossa edícula!
-É o Everest.
-Quem é o Everest?
-Nosso novo inquilino.
-Como novo? Nunca alugamos a edícula.
-Esse confinamento me fez...qual aquela palavra que sua mãe sempre usa quando vai justificar algo injustificável?
-Ressignificar.
-Isso aí! Ressignifiquei! Tanta gente precisando de uma moradia e aquele espaço que nunca usamos...
-E se a mamãe vier morar conosco?
-Pouco provável. Ela parece a Elizabeth Taylor em quantidade de casamentos. Além do mais o espaço é grande, duas suítes.
-Você acha que ela dividiria o espaço com o Everest?
-Por quê não? Rapaz simpático, inteligente, engraçado, faz stand-up comedy.
-Mamãe é muito seletiva na convivência.
-Aos setenta e cinco, sem moradia e sem aposentadoria, dá pra flexibilizar um pouco, não?
-Você deveria ter conversado comigo a respeito antes de alugar.
-Você concordaria?
-Não.
-Foi o que imaginei. E nesse meu processo de ressignificação descobri que preciso recuperar minha identidade. Há trinta anos não tomo uma decisão sozinho.
-A fórmula do seu sucesso, Alceu!
-Você é suspeita, Susana.
-Basta ver o que aconteceu com seus amigos independentes e cheios de individualidade.
-Todos divorciados.
-Todos perdidos, sem rumo,sofrendo de síndrome de Peter Pan.
-Mas se divertindo.
-Você não se diverte?
-Dificilmente rimos juntos, ou um do outro, ou da vida.
-É a correria.
-Você não pára nunca.
-Viver é como andar de bicicleta, Alceu.
-Odeio ciclovias, Susana.
-Voltando a edícula.
-O que tem o Everest?
-Quanto vai pagar de aluguel?
-Pagará com serviços.
-Escambo, Alceu?
-Troca, economia moderna.
-O que ele fará?
-Limpar a piscina uma vez por semana, lavar o carro, caminhar com o Rambo.
-O que a vizinhança dirá de um anão lavando carro na frente da nossa casa e caminhando com nosso cachorro?
-Quanto preconceito!
-Não estou gostando da sua ressignificação.
-Você vivia dizendo que eu precisava mudar!
-Mudar sem ficar tão diferente!
Sergio Cavalcanti
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